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Posts Tagged ‘pseudociências’

A garantia social da ciência (Série pseudociências – Parte 6#)

January 26th, 2010

Olhando amplamente todo o leque de pseudociências, pergunto-me “o que fez com que um tipo de explicação não-científica tente se passar por ciência?”.

É claro, como muitos ja apontaram, como Carl Sagan, citado no início de nossa série de ensaios sobre pseudociências, existe uma séria deficiência na alfabetização científica.

Essa deficiência permite que explicações não-científicas passem como científicas; assim como também é possível encontrar pessoas com uma certa fobia ao que e científico. Por que?

Os fóbicos da ciência relacionam os maus usos dos produtos da ciência e tecnologia como se fosse a própria ciência.  Esquecem que ela é um instrumento, assim como outras áreas plenamente humanas. O uso dos produtos científicos e tecnológicos beiram a instrumentalidade: usar um martelo para lesar uma pessoa não significa dizer que o martelo é “mau”.

O valor maléfico ou benéfico é dado aos produtos dela e não a si mesma.  A confusão entre empregos lesatórios, dos produtos de uma ciência e a própria ciência, é uma das fontes de fobia científica.

Claro que a coisa não é tão simples assim, alguns ainda podem argumentar que o procedimento científico pode empreender resultados que lesariam. O estudo de drogas em animais, por exemplo, podem ser uma lesão a animais.

Mas este é um caso centrado na ética da conduta de pesquisa. O fóbico da ciência, quando admite sua maleficidade, a admite por geral. A generalisa. E pega casos centrados na ética da conduta de pesquisa e generalisa como um todo. Por este motivo deve existir o estudo ético na ciência. Entretanto o argumento do fóbico parece ser truncado: não encontramos em todo o tempo atos que poderiam ser considerados lesatórios num estudo científico. Caso um fóbico da ciência ainda afirme que, em última instância, todo ato de estudo científico leva ou pode levar a lesões a outrém, posso ainda imaginar que este argumento não é muito forte: poderia ser extendido para toda capacidade de raciocínio, não só à ciência, e por último ao ser humano e suas decisões diárias (não vejo essa linha de raciocínio, de que a ciência seria má por possibilitar lesões mesmo que em decorrência de um estudo não lesatório, como uma linha de crítica válida; parece uma crítica externa e ela cabe tanto no que é conhecimento, quanto no que for humano – e assim o homem seria lesatório por natureza e tudo o que produzisse).

Portanto, de uma maneira ampla, o argumento do fóbico parece nascer de uma confusão entre uma escolha realmente lesatória (construir uma arma  com conhecimento técnico-científico e aplicá-la) e uma escolha não lesatória, mas que poderia levar a uma lesão futura (o estudo da combustão de certas substâncias).

Um teste com uma bomba nuclear - Fonte: Wikipédia

Um teste com uma bomba nuclear - Fonte: Wikipédia

A deficiência na alfabetização científica (e não somente nela, mas em muitos campos do conhecimento) pode permitir este tipo de fobia. Não estou falando da crítica à ciência (a ciência como qualquer outro âmbito humano está passível a crítica; e ao meu ver deve estar sempre sobre o crivo do olhar crítico), mas estou a remeter-me ao ato fóbico, quase doentio, da negação do que é ciência ou científico (como se ela fosse uma personagem maléfica de uma história). Read more…

Arnaldo Vasconcellos Ciência, Educação, Epistemologia, Gerais, Teoria da Ciência , , , , , , , ,

A incomunicabilidade do dragão da minha garagem – (Série pseudociências – Parte 5#)

January 19th, 2010
Dragão chinês

Dragão chinês

Em nosso blog, em outro ensaio já falamos do livro de Carl Sagan “O mundo assombrado pelos demônios”. Neste livro, Sagan tem um capítulo denominado “o dragão da minha garagem” onde explica o caráter ad hoc de teorias não científicas face ao método científico para verificá-las e falseá-las.

Neste ensaio procuro refletir sobre a existência de um dragão que não possa ser analisado sob a luz de nosso método científico.

Uma primeira visita ao exemplo, notamos que estabeler a existência de um dragão que não pode ser analisado é de difícil instância, pois parece não ser apresentável em nenhuma forma de fenômeno. Também não parece estar relacionado com nenhuma forma fenomênica.

Fenômeno vem do grego “phainomenon” que é basicamente aquilo que é observável, que tem uma aparição.

Um dragão, cuja existência não é estimável por análises de sua aparição, ou seja de seu fenômeno, e não está relacionado com nenhuma outra forma de aparição – poderíamos tentar analisá-lo não apenas diretamente, mas em relação a outras observações correlatas – é um dragão indeterminável. É, com muita possibilidade, de natureza incognoscível (se existente) ou incomunicável.

Vamos reler o exemplo de Sagan e depois iremos explorá-lo como uma experiência mental:

- Um dragão que cospe fogo pelas ventas vive na minha garagem.
Suponhamos que eu lhe faça seriamente essa afirmação. Com certeza você iria querer verificá-la, ver por si mesmo. São inumeráveis as histórias de dragões no decorrer dos séculos, mas não há evidências reais. Que oportunidade!
- Mostre-me – você diz. Eu o levo até a minha garagem. Você olha para dentro e vê uma escada de mão, latas de tinta vazias, um velho triciclo, mas nada de dragão.
- Onde está o dragão? – você pergunta
- Oh, está ali – respondo, acenando vagamente. – Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.
Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão
- Boa idéia – digo eu –, mas  esse dragão flutua no ar.
Então, você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.
- Boa idéia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.
Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.
- Boa idéia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir.
E assim por diante. Eu me oponho a todo teste físico que você propõe com uma explicação especial de por que não vai funcionar.
Qual a diferença entre um dragão invisível, incorpóreo, flutuante, que cospe fogo atérmico, e um dragão inexistente? Se não há como refutar a minha afirmação, se nenhum experimento concebível vale contra ela, o que significa dizer que o meu dragão existe? A sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é absolutamente a mesma coisa que provar a veracidade dela. Alegações que não podem ser testadas, afirmações imunes a refutações não possuem caráter verídico, seja qual for o valor que possam ter por nos inspirar ou estimular nosso sentimento de admiração. O que eu estou pedindo a você é tão somente que, em face da ausência de evidências, acredite na minha palavra.  (Sagan, C. In: O mundo assombrado pelos demônios. Retirado de: http://scm2000.sites.uol.com.br/dragao.html).

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Arnaldo Vasconcellos Ciência, Cognoscibilidade, Epistemologia, Filosofia, Gerais, Teoria da Ciência, teoria do conhecimento , , , , , , , , ,

Alterações Ad hoc – Limites entre o lícito e o ilícito (Série pseudociências – Parte 4#)

January 2nd, 2010

Quando falamos a respeito do Falseacionismo Ingênuo (ou falseacionismo dogmático), estabelecemos que existe um problema sério para demarcar até que ponto é lícito as alterações ad hoc que podem incluir novas, ou alterar antigas hipóteses.

Em outro ensaio, também estabelecemos, que existe um problema de demarcação entre o que é ou não pseudociência. De forma geral, como diz na publicação “Crítica na Rede”, “O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo” (Achinstein, Peter in: Crítica na Rede. Ver link). Este termo teria sido utilizado, primariamente, por Popper e podemos afirmar que sua pesquisa de um falseacionismo seria justamente demarcar o que é científico.

O problema da demarcação é um problema de âmbito epistemológico (demarcar qual produto do conhecimento pode ser considerado científico). Pensadores podem até ter desenvolvido formas de fazer tal demarcação, mas ainda assim encontra-se problemas residuais acerca disto. Se Popper desenvolveu uma filosofia da ciência em que o que é teoria científica é refutável, isto é um avanço – entretanto existe ainda o problema residual: se formos dogmáticos no falseacionismo, assumiremos que toda e qualquer alteração ad hoc é ilícita; entretanto isto é um sério problema epistemológico, pois como poderíamos chegar a construir uma teoria consistente, caso toda e qualquer hipótese refutada fosse capaz de falsear toda a teoria?

Ora essas duas formas que expus acima são apenas duas faces de um mesmo problema. Se é problemático definir, penso, até que ponto é lícito alterações ad hoc também temos um problema em definir com precisão o que é científico.

Evidente que alguns casos saltam como exemplos claros. Carl Sagan no livro “O mundo assombrado pelos demônios” (do qual já escrevi um artigo a respeito) fala do exemplo do “dragão na minha garagem”. Se eu quero provar para você que existe um dragão na minha garagem e, você que é um cético, questiona de todas as formas possíveis a minha afirmação e eu rebato o tempo inteiro com alterações ad hoc transformando a afirmação inicial em uma outra afirmação durante o processo, é claro que esta não será uma afirmação de minha parte que tenha caráter científico.

Uma teoria pseudocientífica, no entanto, pode-se utilizar de forma abusiva das alterações ad hoc. Mas qual é o nível desse abuso?

Se olharmos a história da ciência encontramos o caso da teoria do Éter, no qual a luz se propagaria numa onda num meio muito tênue, o éter.

Hendrik Antoon Lorentz

Hendrik Antoon Lorentz

As tentativas experimentais para detectar o éter falharam ao apontar a natureza do mesmo (ver experimentos de Michelson e Morley). Explicações sobre o funcionamento da luz no éter então surgiram. Estes tipos de alterações foram ad hoc.

Ora, claro que ainda neste meio tempo a eficácia de uma teoria ou outra pudessem ser questionadas, mas os experimentos tinham boa base teórica (leia: tinham boa coerência com a teoria) e nenhum deles foi capaz de detectar o éter, mesmo com a condição da coerência teórica. A saída foi alterar a teoria do éter para explicar o porque que mesmo os experimentos estando em coerência com a teoria não foram capazes de detectá-lo.

As alterações nestas teorias, sobretudo as re-interpretações de um cientísta chamado Lorentz salvaram a teoria do éter por um tempo, mas ao mesmo tempo abriu bagagem teórica para o desenvolvimento de outro aparato teórico: a teoria da relatividade, por Albert Einstein.

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O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

December 31st, 2009
Karl Popper

Karl Popper

Para começar esta postagem, vou fazer uma analogia, que já usei em conversas em outros blogs. Lógico que este exemplo encerra apenas parte do que quero dizer e não é completo, mas tento elucidar um pouco sobre a complexidade das teorias no processo científico.

Imagine que você está num quarto escuro. Em pleno escuro. Sabe que apenas existe um interruptor para acender uma luz. Você inicia uma série de hipóteses:

1) Deve existir ao menos uma lâmpada neste quarto.

2) Se existir ao menos uma lâmpada, ela deve ser acionada por um interruptor.

3) O interruptor deve ficar numa das paredes do quarto.

Você então começa a tatear o quarto. Aparentemente está longe das paredes. Então começa a tatear objetos em busca de uma parede. Encontra um sofá e portanto deduz que atrás deste sofá deve existir uma parede. Chega a parede (confirmando sua hipótese). Tateando a parede descobre na parede subsequente uma cortina.

Deduz que atrás da cortina deve existir uma janela e ao abrir irá iluminar, mesmo que parcialmente, o quarto ajudando a achar o interruptor. Para sua felicidade sua hipótese auxiliar está corroborada e existe uma janela. Entretanto ela está trancada e não pode ser aberta.

Em seguida continua a tatear até achar uma porta. A mesma está trancada. Deduz que perto da porta deve existir um interruptor. Para seu desânimo você não encontra interruptor.

A partir de então deve tomar uma decisão,  o fato de não encontrar um interruptor não é sinal de que ele não exista.

a) ele pode existir próxima a esta porta e não tateei corretamente.

b) ele pode não existir próxima a esta porta e estar próxima a outra.

c) ele pode não estar próxima a nenhuma porta.

d) ele pode não existir.

Poderia falsear logo aí toda a minha “teoria”, ou poderia refazer apenas as hipóteses que estão com problemas. Como podemos perceber existe dois extremos pessimistas: se eu descartar logo de primeira corro o risco de estar no caminho certo e mudar repentinamente, ou estar no caminho errado e tentar continuar insistindo num caminho que não representa verossemelhança com o mundo e gastar tempo com algo que nada irá me resultar.

Popper desenvolveu uma teoria da ciência, que ao invés da verificação de uma teoria, o cientista deve tentar falseá-la. Uma teoria falseável é plenamente científica. Quando observações vão contra a teoria a mesma é falseada. Caso não corram contra a teoria, ela é corroborada.

Ora, o falseacionismo ingênuo é aquele em que acredita-se que uma ou qualquer observação contrária é capaz de falsear uma teoria. O falseacionista ingênuo (ou dogmático) poderia tachar excessivamente uma alteração ad hoc (uma alteração após observação) na teoria.

Entretanto Popper não era um mero falseacionista ingênuo. Existe um problema da demarcação: até que ponto é lícito alterar ad hoc teorias para que se sustentem. E Popper sabia deste problema. Não é acertado colocar o pensamento de Popper como um falseacionista ingênuo, como pode-se pensar numa primeira passagem.

O falseacionista ingênuo acredita, de certa forma, que toda a teia de teoria científica relaciona-se com dados observacionais.

Mas não é bem isso que encontramos na ciência. Podemos encontrar teorias conectadas a outras teorias e estas a outras e estas últimas sim a dados observacionais. Não só de correspondência vive a ciência, mas sim também de coerência entre teorias.

Ora, pode acontecer de hipóteses auxiliares serem refutadas num experimento (ou observação), mas um centro teórico ainda parecer coeso.

Imre Lakatos

Imre Lakatos

Por este motivo, um outro pensador, Lakatos, desenvolveu uma filosofia em que existem programas de pesquisa científica. Elas podem possuir um núcleo duro que é mais coeso e difícil alteração e extremidades de hipóteses auxiliares que podem ser alteradas conforme a confrontação.

Pode acontecer ainda uma teoria não ser correta e realmente acontecer uma refutação no cerne da mesma.

Como podemos, então, demarcar o procedimento a adotar? Creio que o falseacionismo ingênuo, apesar de, aparentemente, ser fantástica a sua solução (refutou qualquer coisa, descarte) não é plenamente válida. Descobrir a natureza requer paciência e muito cuidado. Da mesma forma modificar eternamente uma teoria, face as confrontações, pode acabar por deixá-la totalmente disforme.

Participo do pensamento em que os dois extremos não são bem vindos:

a) alterar uma teoria demais pode ser sinal claro de que a mesma não está funcionando bem, portanto deverá ser bem analisada se suas alterações são em hipóteses profundas, se mantém coerência, se as obsevações (se puderem ser) repetidas reportam o mesmo grau de refutação, etc;  então esta teoria é seria candidata a ser falseada e uma “salvação” da mesma pode torná-la pseudociência (e este é um caminho comum nas pseudociências).

b) Achar que toda a ciência está relacionada de forma direta a uma observação. E que uma observação contrária pode já refutar TODA uma teoria, sem antes analisar a natureza da observação, a qualidade da mesma, se a refutação é ou não a nível auxiliar.

Penso que uma teoria errada, acaba no passar dos anos não se sustentando.  Encontramos isto na história da teoria do éter e no surgimento da teoria da relatividade.

Deve-se ter um meio termo entre o salvador de teorias e o falseacionista ingênuo (por mais fantástico que este último possa parecer).

UPDATE (OBS)

Encontrei algumas pessoas com pensamento de cunho de falseacionismo ingênuo que considerariam que “hipóteses auxiliares” seriam formas de “minimizar a importância da descoberta científica” (ver link supracitado). De antemão: hipóteses auxiliares não reduzem a importância da descoberta científica, apenas descrevem o funcionamento da dinâmica científica que o falseacionista ingênuo pode deixar passar despercebido.

Arnaldo Vasconcellos.

Arnaldo Vasconcellos Ciência, Epistemologia, Evolucionismo, Filosofia, Teoria da Ciência, teoria do conhecimento , , , , , , , , , , ,

Pseudociências – Série de Ensaios (Parte #2)

December 28th, 2009

As Protociências
Neste ensaio veremos brevemente o que são protociências, suas distinções entre pseudociências e a possibilidade entre as dinâmicas protociência-ciência, protociência-pseudociência.

Vamos considerar, neste ensaio, que protociência é uma definição diferente de pseudociência.

Tomaremos como base que protociências são teorias, hipóteses ou argumentos aspirantes a ciência (e todo seu cabedal de método)  e  que estariam em fase de estruturação científica, tal como a mesma é concebida em relação aos métodos de falseacionismo e corroboração.

Assim a pseudociência, cuja definição pesquisamos em artigos passados, não é sinônimo de uma protociência.

Alguns leitores poderiam considerar a protociência como uma área atuação que teria dado origem histórica a alguma ciência – isto pode não ser falso, visto que historicamente alguns pensamentos deram origens a ciências, como é o caso da alquimia. Entretanto não é a própria alquimia que se tornou a química. Sua estrutura sofreu mudanças e hoje temos algo bem diferente, embora tenha-se uma ligação histórica.

Como estes conceitos não são estanques, a definição encontrada neste artigo não é definitiva. E não quero encerrar uma definição cabal. (Tenho que pensar mais sobre o assunto – assim este ensaio é só um ensaio, não encontra-se aqui uma solução ao problema).

Portanto o que me resta é não adotar, neste ensaio, o termo “protociência” para estes tipos de movimentos históricos. Até porque adotar esta posição permite que mesclemos num mesmo tempo e espaço casos em que uma protociência foi uma pseudociência.

Entretanto, a natureza semântica que me refiro a “protociência” é algo relacionado a um argumento (entenda-se teoria) que ainda não possui crivo do método ciêntífico, mas o almeje e esteja a tal caminho. Neste sentido uma pseudociência que teria derivado uma ciência, pode não ser bem uma protociência, mas sim sua reformulação a seria. Não impede também o outro lado: que uma pseudociência teria resultado uma ciência, no âmbito em que aceitaria o crivo do método científico (assim podendo ser enquadrada como protocientífica).

Até agora teríamos analisado o movimento protociência-ciência. Entretanto é plausível o movimento protociência-pseudociência.

Na segunda semântica apresentada teríamos uma teoria aspirante a teoria científica, mas que ao ser refutada, diversas vezes, seus seguidores ingressariam argumentos ad hoc, ou seja, salvando a teoria, mesmo contra as observações dadas a tal ponto a complicar exaustivamente a teoria apresentada originalmente. Como falamos de uma teoria que ainda não estaria ingressada como científica, ela não estaria propriamente corrigindo hipóteses auxiliares, mas sim ela mesma por completo. Neste caso uma protociência seria uma boa candidata a se tornar uma pseudociência.

E este é um caminho muito fácil, porém suponho ser um tanto duvidoso.

UPDATE (03.03.2010)

Relendo este artigo algo pareceu soar-me estranhamente. Eu disse o seguinte:

Alguns leitores poderiam considerar a protociência como uma área atuação que teria dado origem histórica a alguma ciência – isto pode não ser falso, visto que historicamente alguns pensamentos deram origens a ciências, como é o caso da alquimia. Entretanto não é a própria alquimia que se tornou a química. Sua estrutura sofreu mudanças e hoje temos algo bem diferente, embora tenha-se uma ligação histórica.

Como pode alguem (e neste caso eu :) ) ter falado alguma coisa do tipo? É como se dissesse que a química atual não tivesse nascido dos esforços dos primeiros alquimistas. Mas, e este é o ponto, analisando o que eu mesmo disse é possível notar que eu não assumo conceitos estanques; portanto num nível histórico a química atual descende dos primeiros esforços alquímicos, que mudando suas perspectivas e imagens de natureza/ciência resultaram na química atual. Quando eu afirmo que a química tem como protocência, a nível histórico, a alquimia é reconhecendo estes esforços que culminaram em desenvolver e adotar o método científico nesta ciência. Mas o que gostaria de enfatizar que uma protociência histórica tem diferença em uma protociência atuante.

“Como assim?” muitos poderiam perguntar-me. Uma das definições de protociência é “o que antecede uma ciência, anterior a ela” e esta definição é de cunho histórico; mas não é esta definição que estou usando neste artigo.  E por isso prefiro chamar esta definição não apenas de protociência, mas sim de “protociência histórica”.

Utilizo na análise, neste artigo, uma definição mais voltada a aceitabilidade do método científico dentro de um argumento atuante. Nesta definição, que seria “conhecimento que aspira o grau de ciência e está disposta a utilizar o método científico”, ela não é sinônimo de protociência histórica. Entendem a diferença? A protociência histórica, teria dado, por algum motivo, origem a uma ciência, mas não estaria em sua base a necessidade ou a conveniência de aceitar o método científico.

Já uma protociência, na segunda definição (e a que adotamos neste artigo), representa uma pretensão e objetivo de ser ciência, não apenas pela garantia social científica, mas sobretudo pela aceitabilidade do uso do método científico e todo seu arcabouço.

Assim, a alquimia seria uma protociência histórica, mas não teria sido uma protociência atuante. Desta mesma maneira uma protociência histórica pode ser ao mesmo tempo uma pseudociência, mas por definição auto-excludente, uma protociência (a metodológica) não pode ser uma pseudociência. Pois uma esta a assumir o cabedal metodológico, enquanto outra apenas está em busca da garantia social científica (abordado em outro artigo, já supra-linkado). Mesmo assim é possível o movimento de passagem de uma protociência em pseudociência, caso o método revele que seu conteúdo é falso, mas seus integrantes não aceitem e partam para via da utilização da garantia social científica.

Existe também a alternativa de uma protociência morrer, caso rechaçada pelo método científico, seus desenvolvedores não se arrisquem a se manterem no terreno do pseudocientífico.

Nesta forma de encarar a protociência (metodológica) podemos ver que então a alquimia teria dado origem a uma outra etapa, talvez muito rápida, e transicional, de argumentações e pretenções (com imagens de ciência/natureza diferentes) que se analisadas frente-a-frente com a alquimia não seria estruturalmente a mesma coisa, seria a química momentos antes de estar consolidada como ciência, entretanto ainda em desenvolvimento inicial. Esta sim seria a protociência metodológica, que teria sido derivada de uma protociência histórica (alquimia), mas que teria estrutura diferente dela. A partir do ponto em que o método científico já empregado e corroborando com a existência do maquinário teórico da química esta seria passada a ser ciência. Este movimento poderia ser similar em outras ciências.

Entretanto poderíamos argumentar que a aceitabilidade da mudança de imagens de natureza/ciência já em si uma mudança e trata de uma aceitabilidade do método; entretanto penso que este processo já transmuta o primeiro estágio apresentado (protociência histórica) em outra coisa que não é ela mesma estruturalmente (protociência metodológica).

Arnaldo Vasconcellos.

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