Só se pode navegar existindo a escrita?
Em um blog criacionista foi formulado um argumento em que por a língua escrita ter sido desenvolvida a aproximadamente (no máximo) 6.000 anos, isso seria base de uma dúvida da datação evolucionista, em relação ao desenvolvimento da navegação (por base no papel de transferência de saberes tecnológicos que a escrita pode representar) e por conseguinte dúvida da veracidade do próprio evolucionismo (com este argumento).
Eu me pergunto, será realmente que somente se pode navegar existindo a escrita, como afirma o blog?
O blog coloca que a escrita é uma condição necessária para se desenvolver a navegação.
Vamos analisar o artigo em questão. Diz assim o artigo:
“Uma das muitas coisas que me leva a não ter fé na teoria religiosa evolucionista [sic!] é o facto do conhecimento humano se desenvolver rapidamente. O que é que isso tem a ver, perguntam vocês…
“Pois bem, os evolucionistas acreditam que o Homo erectus, um ser humano que até tinha capacidade para falar, está na terra há cerca de 2 milhões de anos. Não obstante, eles acreditam que estes seres humanos só nos últimos 10.000 anos da História é que descobriram coisas como a agricultura, criaram civilizações, monumentos gigantes, foguetões e blogues. O conto evolucionista custa a engolir porque nós sabemos que, em 6000 anos de História registada, o conhecimento progrediu de uma forma devastadora. Mas aí vem o evolucionista e saca do bolso uns milhões de anos que nunca ninguém viu nem registou, onde o conhecimento parece ter estado estagnado.”
Não me parece que “estagnado” seria a palavra certa. A velocidade de desenvolvimento de conhecimento humano pode ser potencializada com adventos de técnicas. Parece-me plausível supor que a escrita poderia ter um papel, ao longo dos tempos, potencializador em como se transmite uma técnica (ou tecnologia) e portanto não poderíamos chamar de “estagnado” o estágio anterior. Assim como a internet hoje pode potencializar a divulgação e a velocidade de informações, a escrita pode ter tido (ou ainda ter) seu papel neste fomento.
Ainda mais a frente o autor afirma:
“Navegação começou 100 mil anos antes do que se pensava
“Esta notícia saiu esta semana e serve muito bem como exemplo do assunto que está a ser discutido. Segundo os conceitos de datação evolucionistas, ferramentas de pedra encontradas na ilha de Creta indicam que os humanos de há 130 mil anos (130.000) já navegavam pelo Mediterrâneo. Uma vez que segundo eles Creta é uma ilha desde há 5 milhões de anos, aquelas ferramentas têm de ter sido trazidas para lá por alguém que navegou até ao local.
“Eis o que o dr. Thomas Strasser disse, referindo-se ás ferramentas: “Ficámos completamente atónitos. Aquelas coisas não deveriam estar lá“.
“Vamos assumir a datação evolucionista por algum tempo. O evolucionista conta-nos a histórinha de que há 130 mil anos já havia seres humanos que tinham conhecimento de navegação mas só 120 mil anos depois é que se lembraram de criar um alfabeto e registar a sua História. A treta não pega.” [Grifo meu].
Ora, não é menos plausível pensar na possibilidade de povos que desenvolvam a navegação e depois venham a desenvolver navegação. O desenvolvimento da escrita não foi uniforme e parece que o argumento do autor criacionista é envolto na seguinte hipótese (h1) “Deus criou os homens com a escrita, porque a escrita apareceu a uns 5000 ou 6000 anos atrás” e este está atrelado ao (h2) “é contra-senso desenvolver navegação sem a escrita, pois com a escrita pode-se transmitir a tecnologia de navegação”.
Entretanto os povos ao longo do mundo não criaram a escrita ao mesmo tempo. Algumas desenvolveram a 3000 a.C., outras à 1500 a.C etc. Portanto derruba o h1.
Outra importante coisa a se salientar que não obrigatoriamente todos os povos tenham desenvolvido uma tradição escrita que fosse capaz de transmitir tais técnicas de navegação. As técnicas de navegação parecem poder ser transmitidas por via oral, visto que lingua falada não é necessariamente língua escrita (contrariando o h2). Assim é possível existir povos que não se tenha desenvolvido escrita, mas que com uma cultura oral pudessem transmitir técnicas básicas de construção de embarcações e navegação – e a transmissão oral pode-se basear em contos de lendas, tradições, culturas etc.
Não parece, ser, portanto, difícil supor a transmissão oral de feitos e técnicas. Read the rest of this entry »
Posted: February 25th, 2010
at 3:43am by Arnaldo Vasconcellos
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O Falseacionismo Ingênuo e a solução fantástica (Série pseudociências – Parte 3#)

Karl Popper
Para começar esta postagem, vou fazer uma analogia, que já usei em conversas em outros blogs. Lógico que este exemplo encerra apenas parte do que quero dizer e não é completo, mas tento elucidar um pouco sobre a complexidade das teorias no processo científico.
Imagine que você está num quarto escuro. Em pleno escuro. Sabe que apenas existe um interruptor para acender uma luz. Você inicia uma série de hipóteses:
1) Deve existir ao menos uma lâmpada neste quarto.
2) Se existir ao menos uma lâmpada, ela deve ser acionada por um interruptor.
3) O interruptor deve ficar numa das paredes do quarto.
Você então começa a tatear o quarto. Aparentemente está longe das paredes. Então começa a tatear objetos em busca de uma parede. Encontra um sofá e portanto deduz que atrás deste sofá deve existir uma parede. Chega a parede (confirmando sua hipótese). Tateando a parede descobre na parede subsequente uma cortina. Read the rest of this entry »
Posted: December 31st, 2009
at 2:38am by Arnaldo Vasconcellos
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Paul Sereno e o “design”

O Paleontologista Paul Sereno
Lí alguns dias atrás uma notícia no Site da Terra, que o paleotologista Paul Sereno teria descoberto uma espécie de mini tiranossauros e teria efetuado afirmações criacionistas.
Pronto! Será um problema de semântica na tradução ou seria que realmente teríamos estes dados conforme o veículo editorial teria afirmado?
Esbarrei no “Observatório da Imprensa“, no qual, exatamente o que estava indagando, estava respondido. Seria um problema de tradução em certos trechos.
Verifiquei que também existia em outros Blogs na net falando a respeito.
A autora da tradução, como pude acompanhar neste link, não é criacionista, entretanto a sua tradução poderia ser absorvida por um criacionista incauto, além da ambiguidade semântica.
Ao que parece o erro não é uma desonestidade religiosa, mas sim um deslize na tradução. E esse deslize pôde passar despercebido e ser veículado, como aconteceu no site do Terra.
Creio que este é um erro que não se pode deixar cometer em traduções, visto que pode levar uma interpretação errônea na divulgação científica. Talvez esteja superdimensionado, pois muitos nem ligariam para tal fato – mas é algo que pode ser evitado.
Posted: December 18th, 2009
at 1:32am by Arnaldo Vasconcellos
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