Alterações Ad hoc – Limites entre o lícito e o ilícito (Série pseudociências – Parte 4#)

Quando falamos a respeito do Falseacionismo Ingênuo (ou falseacionismo dogmático), estabelecemos que existe um problema sério para demarcar até que ponto é lícito as alterações ad hoc que podem incluir novas, ou alterar antigas hipóteses.

Em outro ensaio, também estabelecemos, que existe um problema de demarcação entre o que é ou não pseudociência. De forma geral, como diz na publicação “Crítica na Rede”, “O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações verdadeiras sobre o mundo” (Achinstein, Peter in: Crítica na Rede. Ver link). Este termo teria sido utilizado, primariamente, por Popper e podemos afirmar que sua pesquisa de um falseacionismo seria justamente demarcar o que é científico.

O problema da demarcação é um problema de âmbito epistemológico (demarcar qual produto do conhecimento pode ser considerado científico). Pensadores podem até ter desenvolvido formas de fazer tal demarcação, mas ainda assim encontram-se problemas residuais acerca disto. Se Popper desenvolveu uma filosofia da ciência em que o que é teoria científica é refutável, isso é um avanço – entretanto existe ainda o problema residual: se formos dogmáticos no falseacionismo, assumiremos que toda e qualquer alteração ad hoc é ilícita; entretanto isso é um sério problema epistemológico, pois como poderíamos chegar a construir uma teoria consistente, caso toda e qualquer hipótese refutada fosse capaz de falsear toda a teoria?

Ora essas duas formas que expus acima são apenas duas faces de um mesmo problema. Se é problemático definir, penso, até que ponto é lícito alterações ad hoc também temos um problema em definir com precisão o que é científico.

Evidente que alguns casos saltam como exemplos claros. Carl Sagan no livro “O mundo assombrado pelos demônios” (do qual já escrevi um artigo a respeito) fala do exemplo do “dragão na minha garagem”.

Se eu quero provar para você que existe um dragão na minha garagem, mas você que é um cético, questiona de todas as formas possíveis a minha afirmação. Mas, eu não satisfeito, o rebato o tempo inteiro com alterações ad hoc, transformando a afirmação inicial em uma outra afirmação durante o processo: é claro que essa prática não será de minha parte algo que tenha caráter científico.

Uma teoria pseudocientífica, no entanto, pode utilizar de forma abusiva das alterações ad hoc. Mas qual é o nível desse abuso?

Se olharmos a história da ciência encontramos o caso da teoria do Éter, no qual a luz se propagaria numa onda num meio muito tênue, o éter.

As tentativas experimentais para detectar o éter falharam ao apontar a natureza do mesmo (ver experimentos de Michelson e Morley). Explicações sobre o funcionamento da luz no éter então surgiram. Esses tipos de alterações foram ad hoc.

Ora, claro que ainda nesse meio tempo a eficácia de uma teoria ou outra pudessem ser questionadas, mas os experimentos tinham boa base teórica (leia: tinham boa coerência com a teoria) e nenhum deles foi capaz de detectar o éter, mesmo com a condição da coerência teórica. A saída foi alterar a teoria do éter para explicar o porque que mesmo os experimentos estando em coerência com a teoria não foram capazes de detectá-lo.

As alterações nestas teorias, sobretudo as reinterpretações de um cientista chamado Lorentz salvaram a teoria do éter por um tempo, mas ao mesmo tempo abriu bagagem teórica para o desenvolvimento de outro aparato teórico: a teoria da relatividade, por Albert Einstein.

Albert Einstein
Albert Einstein

Ora a teoria do éter, com alterações ad hoc estava de certa forma, mesmo alterada, novamente no páreo da falseabilidade. A teoria da relatividade foi proposta. Talvez possamos dizer que a navalha de Occam foi aplicada (parece que sim) e a teoria da relatividade especial entrou no páreo científico.

A teoria do éter foi caindo em descrédito e hoje é tomada como falseada.  Foi substituída por outras teorias como a Relatividade e as equações de Maxwell. Entretanto seu status de teoria científica não pode ser diminuída – embora esteja completamente falseada.

Agora, se sempre fosse efetuadas alterações, para mesmo com um conjunto de teorias concorrentes e mais sofisticadas, de forma que ela não desaparecesse, poderíamos esbarrar na pseudociência.

Uma pseudociência, mesmo com um conjunto de teorias mais eficazes e falseamento sucessivo na área empírica, continua por estabelecer alterações ad hoc para continuar como ativa.

O problema da pseudociência é que essas alterações são para que a mesma continue com alguma correspondência com os resultados, mesmo perante o escrutínio científico. Mas essas alterações acabam por tirá-la do campo científico (porque as torna irrefutáveis devido a possibilidade de alterações sucessivas). Esse movimento é um tanto interessante, pois ao acontecer tal fato, suponho, é que a dita teoria tenta continuar a ser creditada como científica – tornando-se pseudociência. Ou essa teoria se torna pseudociência, ou será uma mera teoria não científica (caso não tenha a pretensão de continuar ser ciência).

Ora, o fato de deixar de ser científica significa que a garantia teórica buscada (corroborar ou falsear) não pode ser apontada naquele sistema.

Alguns exemplos de áreas que são potenciais pseudociências são enormes, como a numerologia, quiromancia etc. Entretanto, assim como já falamos, é fácil estabelecer uma distinção entre extremos, alguns casos podem se tornar complicados para uma possível demarcação – necessitando de mais critérios.

Ao longo de nossos ensaios, podemos notar que uma teoria científica não só está conectada a pontos empíricos, mas também a uma sofisticada coerência entre dados indiretos, outras teorias etc (e é justamente isso que faz o falsificacionismo ingênuo ser problemático).

Existe, portanto um limite entre alterações ad hoc lícitas ou ilícitas – parece-me ser que, caso for a alteração de uma hipótese mais afastada do núcleo de coerência da teoria (nota de 2026: que o filósofo Lakatos chama de núcleo duro e que não seria apenas da teoria e sim de um programa), e em um número não tão elevado, permitindo ainda pontos falseadores ela é permitida (mesmo com moderação). Entretanto, se é demasiada, altera o núcleo da teoria, com o intuito de apenas salvar a teoria e não permitir pontos falseadores, é ilícita do ponto de vista do método científico.

Arnaldo Vasconcellos

ATUALIZAÇÃO 2026:

Há uma série de coisas que eu reescreveria nesse ensaio. Mas no geral a defesa que há possibilidade que teorias científicas tenham alterações ad hoc de forma demasiada e que nem por isso deixam de ser científicas, é um ponto que eu concordo. Traçar o limiar dessas alterações é algo complexo e difícil. Por esse motivo, Lakatos abordava em sua obra que a racionalidade não é instantânea e é necessário sempre ao filósofo da ciência (e ao historiador) olhar para trás. Quando há alterações em demasia, o programa (que cuida das teorias que estão com diversas modificações) passa a não conseguir sucesso em novas previsões, enquanto programas concorrentes podem lograr êxito nisso. Esse é o ponto que a virada reside e que precisa ser analisada de forma retroativa, segundo a perspectiva de Lakatos e que eu endosso atualmente.

Sendo assim a afirmação que fiz:

Entretanto, se é demasiada, altera o núcleo da teoria, com o intuito de apenas salvar a teoria e não permitir pontos falseadores, é ilícita do ponto de vista do método científico.

Esse trecho passa a ser um pouco problemático e difícil de defender totalmente. Entendo que a proposta era: se há uma demasiada quantidade de alterações se negando ter pontos falseadores, então ela não é mais científica de fato. Sim, concordo.

No entanto, quanto a forma retratada ao dizer que se há muitas propostas ad hoc “altera o núcleo da teoria” parece problemática. Tenho que verificar o que de fato significaria com essa frase. Se se trata de núcleo da teoria a proposta de prever o mundo, sim então concordo, porque uma teoria em programa degenerado perde aos poucos a pretensão de novas previsões. No entanto, se por “núcleo” eu me referia ao fato de ser as propostas mais basais da teoria (que no vocabulário lakatosiano estaria no programa e não na teoria) então discordo; porque o núcleo do programa é a defesa máxima da identidade do programa: se altera-se esse núcleo que é protegido de forma inequívoca, então muda-se o programa e, consequentemente o caminho metodológico.

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